Archive for the 'anotações do caderno escolar' Category

30
ago
10

Anotações do caderno escolar

Estou no quarto período de Filosofia. Quanto chão pela frente, quanto horizonte vislumbro daqui e que jamais alcançarei, e jamais teria sabido de sua infinitude não tivesse vindo bisbilhotar. Nos três primeiros períodos, fiz de seis a oito disciplinas, o que me deixou exausta e ao mesmo tempo excitada. Nesse semestre, resolvi pegar leve para dar conta dos compromissos fora da faculdade. Estou fazendo apenas duas disciplinas: Estética e Teoria do Conhecimento. Em Estética, tenho aula com o húngaro Peter Pál Pelbart, e em Teoria do Conhecimento com o uruguaio Mario Ariel González Porta. Com o Peter, estamos vendo Roland Barthes. Com Mário, estudamos Kant e afluentes. Peter, que foi aluno de Deleuze e de Foucault, no primeiro dia de aula pediu-nos que o ajudássemos na manutenção do ambiente, isso significaria manter a sala em estado de kairós. Ou seja, um estado que propiciasse o surgimento do imprevisto, que a coisa certa no momento certo rompesse a estrutura rígida da sala de aula. Quase ninguém entendeu isso, como já passei por coisa parecida em sessões de delírio religioso, basicamente estou em casa. Já com o Porta, o delírio ocorre na caudalosa exposição da história da filosofia, do contexto kantiano, do iluminismo racional, passando pelas físicas de Descartes, Leibniz e Newton. Saio dessa aula como se tivesse participado de um triátlon. Com Peter, trata-se de uma espécie de oficina de filosofia, uma busca pela percepção de uma ou outra palavra que possa alimentar um discurso ou um pensamento, é a pescaria do dia. Professor, a linguagem é construção humana ou algo transcendente, que se pode acessar? Ele responde: não importa a origem, o problema é que o homem não a domina. Com Porta, uma rede é jogada no passado da lógica e devemos contar e catalogar peixe por peixe. Professor, transcendental é a nova metafísica? Ele responde: transcendental do ponto de vista de quem? Juro, minha vontade é sair de uma sala de aula e entrar em outra, ininterruptamente. Em Estética, estamos no ponto onde Barthes diz que não há nada fora da linguagem, a língua tem um caráter fascista, sendo a literatura um afrouxamento dessa tirania dentro da própria linguagem. Em Teoria do Conhecimento, a física mecanicista de Descartes versus a física dinamicista de Leibniz. Para o primeiro, corpo é extensão, não há espaço vazio e sim corpúsculos que se tocam, há um corpo/extensão matematizável. Para o segundo, o corpo é um fenômeno da força, e não substância em si. Newton deixa os dois falando sozinhos e não se pergunta pela razão do movimento ou da força, ele passa simplesmente a descrever os fenômenos. Onde Kant entra na cena? É a promessa do Porta para a próxima aula. Minha ansiedade não fica só aí, sempre duvido de que eu realmente tenha entendido qualquer desses pontos filosóficos. Não confio, posso perfeitamente trocar tudo, embananar as palavras fiéis aos conceitos. Não importa, quero mais. Outro dia ouvi um termo ótimo, na ocasião de um simpósio sobre filosofia grega, um pesquisador disse, em crítica aberta a um raciocínio ali exposto: não acha que esse ponto de vista  é muita generosidade hermenêutica? Ou seja, o senhor não acha que derrapou na maionese? Escorregar no gel da interpretação está previsto no código dos salões, ainda que não seja aplaudido. Aliás, esses simpósios servem para que você descubra o que está fazendo ali, no meu caso, correr léguas dos convescotes, que não são diferentes de qualquer evento formal e petrificante. Não há nada melhor que uma boa sala de aula, sentar-se lá na frente e entregar minhas maçãs aos mestres, com eles devidamente à vontade e não colocados à prova em discussões vaidosas. Mas e a literatura? Problema é que virou um esforço danado sair desse ambiente para o da escrita literária, no recanto do lar, onde meu jeito de falar e escrever é uma prisão perpétua. Sempre eu mesma, ou a partir da minha voz. Estou na fase da escuta, não da fala e da escrita. Quando leio literatura, tenho o vício de ator que assiste ao filme pensando na grua utilizada na cena. Lendo filosofia, não faço ideia de onde surgiu a câmera, tão densa é sua estrutura. Fazia tempo que não me perdia, ainda me parece perigoso pensar sobre o pensamento, outro problema é a validade desse pensar que se diz fora do pensamento. Defina validade, defina pensar, defina fora, defina definir, defina definir o definir. Jogo de espelho ao infinito brabíssimo. Vez ou outra, um professor adoece, sei de um ótimo aluno que teve estafa mental e outros que se perderam em labirintos. Não é à toa que a filosofia já esteve fechada em círculos secretos, onde se preparava o iniciante por anos antes que lhe fosse passada a ideia do conhecimento. Sentidos provisórios na busca dos definitivos, ou sentidos provisórios a priori na busca do próprio sentido. Esse rito, sem ritual, tem me deixado deprimida. Mas recuso resgate, vou cair um pouco mais nessa lama. Ou a filosofia é tudo isso, ou é mais um gênero literário (não que isso a diminua, ao contrário).

01
out
09

anotações do caderno escolar

Vejo a professora anotando o que um especialista diz. Ela tem partes velhas e outras jovens, como o intervalo entre as dobras dos dedos. Eis meu futuro cosmético, uma disposição curiosa, onde cheguei a tempo.




delfuego@uol.com.br

Eu voo com um peteleco.

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