08
out
10

revista gloss

Outro dia um preso francês matou o companheiro de cela, abriu seu corpo, tirou o pulmão, cortou em cubos e fez acebolado num fogão portátil. Comeu, evidentemente. Entre nós, o caso Bruno dispensa apresentações. Em São Paulo, assaltantes dão tiro nas vítimas para que o policial tenha de socorrê-las e não possa ir atrás do capeta. Nessa trama, fica difícil a atriz Lindsay Lohan chocar o leitor com uma breve estada no xadrez porque dirigia bêbada e nem dá tempo para comemorar a surra que a amante de Sorocaba levou da melhor amiga. O problema do escândalo, notícia inclusa, é que ele é um texto seguido de foto. Batata frita acompanha. Encândalo só revolta, enfurece, move a alma durante a transmissão da notícia. Nossa sensibilidade está embotada, mas não só porque escândalos são muitos e se autoanulam pela abundância. Os olhos ficaram saturados pela apresentação da notícia em capítulos, ao vivo. Os escândalos parecem iguais aos próximos que virão porque a linguagem da TV nos afasta do drama real. Mais: quando o escândalo é seu, caso ele não seja reportado e distribuído em rede, o luto não começa, a vergonha não aflora, as desculpas nãos podem ser pedidas. Isso é um texto, epitáfio é um texto, bula é um texto, julgamento é um texto e sua vida só vale se for um texto. O fato está ameaçado pela palavra. Escândalo para valer é indizível e privado, ferindo a nuca ou o pulso – onde doer mais.

Texto publicado na edição de setembro da Gloss, uma coluna no final da revista onde a cada mês um colaborador diferente é convidado. Edição do Ademir Corrêa.

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14 Responses to “revista gloss”


  1. 1 Alex Sens
    10/09/2010 às 00:45

    Perfeito! Simples assim. =)

  2. 10/09/2010 às 13:16

    Estou ferida. Um primo querido assassinado ontem dentro de sua casa.
    Não será escândalo, nem notícia caldalosa. Se juntará as estatísticas.

    • 4 andreadelfuego
      10/12/2010 às 16:47

      Querida, meus sentimentos. Talvez a dor privada fique mais protegida. Carinho.

  3. 10/12/2010 às 13:13

    Andrea,
    muito bom texto.
    O mundo atual permitiu a realização de um desejo inconsciente de todos: a transformação de si em personagem pelas redes sociais, e ver a história do mundo contada como dramaturgia pela imprensa e pelos factóides em geral. Lamentável que suas pessoas não percebam que a vida reside nas sensações, e não na história que se vive. “a vida não vale nada, se você não tiver uma boa história para contar”!?

    • 6 andreadelfuego
      10/12/2010 às 16:49

      Obrigada, Gustavo. Acho que estamos na infância das relações e ficções e, acredito, ainda aliaremos a experiência real com essa fumaça toda. Um beijo!

  4. 7 Franklyn
    10/14/2010 às 04:50

    Acabei de ler seu “Os Malaquias”. Grata surpresa. Tô besta. Ler coisas assim, pra gente como eu, que ensaia dar os primeiros passos nessa seara, é uma faca de dois “legumes”. Ao mesmo tempo em que te dá a estocada no baço e diz “´vai lá, escreve que vale a pena”, também se insinua, insidiosa, querendo picotar tudo o que vc já escreveu… tsc tsc. Foi quase a mesma sensação que tive ao ler o “Outra vida”, do Rodrigo Lacerda. Surpresas da leitura despretensiosa. Não conhecia nem vc, nem seu texto. Vou ler o resto. Parabéns.

    • 8 andreadelfuego
      10/18/2010 às 02:33

      Poxa, Franklyn, tão bom ler isso, tão gratificante. Obrigada pela leitura e pelo comentário!! Beijos!

  5. 10/16/2010 às 20:25

    Ótimo texto, excelente reflexão, obrigada por nos brindar com seu pensamento arguto.

    Diria: Apareço, logo existo. Se não viro imagens ou texto, nada sou. Longe dos olhos, longe do coração. Existência miserável ou confusão sensorial, eis nosso século.

  6. 11 Ane
    10/18/2010 às 00:15

    Peguei essa revita num salão e quando vejo a seção colaboradores, simplesmente pulo para a página final e me delicio…

    adorei, simples e certeiro!

  7. 10/19/2010 às 20:02

    Uma amiga queria, certo dia, me liga para cobrar um empréstimo de dois livros, e faça cheia de alegria: Eeeeeeeeeei! Nem te conto! Eutou lendo aqui a revista Gloss, e adivinha o que encontro? Um texto da tua “amiga” André Del Fuego. Não foi ela que te mandou um livro autografado? Menino, adorei o texto.Tu ainda fala com ela?”

    Haha!

    E então me emprestou a Gloss, e pediu que eu entregasse a ela por uns dias “Minto enquanto posso”.

    Coisas da vida!

    Beijos, moça!


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