13
ago
09

crônica na Revista do Brasil

Revista do Brasil – Edição 38


Michael não morreu aqui

Como sentir falta de alguém que nunca me telefonou?


Fiquei durante horas, na frente da televisão, vendo o funeral do Michael. Comovida pelas homenagens. Agradecendo mentalmente a presença dos convidados, como um parente que sente sua dor atenuada diante de estranhos, que também amam quem ele perdeu.

A letargia foi cortada por uma lembrança. Recordei-me de um coveiro que, ao ser perguntado sobre a tristeza de seu trabalho, respondeu que “não se chora todos os mortos, só os seus”. Foi um clique, questionei a razão do meu luto, ainda mais que Michael nem havia morrido, e posso provar.

Como sentir falta de alguém que nunca me telefonou? Suponhamos que ele fosse um morto da minha família, ele realmente não mais me telefonaria, nem apareceria numa quinta para comer uma lasanha de supermercado, no bingo da festa junina. Não iria mais ao aniversário da minha tia Cidinha.

Uma pena, mas também, não sei se alivia, não precisaria pagar-lhe a grana emprestada. Que virada na vida depois dos cem mil que ele teria me passado em cheque. O cheque que eu venderia, porque a assinatura do cantor vale mais do que a quantia escrita no papel. Quanto seria mesmo? Daria para abrir um comércio para o meu pai, ele está desempregado.

Teria muita saudade do Michael. Não falo pelo dinheiro, porque a gente trabalha, e quem trabalha paga sempre alguma prestação. Digo pelo contato direto, pela presença física.

O Michael no churrasco, o Michael no batizado, o Michael lavando o prato em que comeu, o Michael cortando unha do pé com o alicate da minha irmã, o Michael no enterro do meu avô, o Michael tomando cerveja na rodoviária antes de pegarmos o ônibus para o litoral.

As irmãs de Michael me mandariam passagem, assim teriam minha companhia no velório, mas eu não poderia ir. Que desaforo, as irmãs demoraram a mostrar o morto no estádio para dar tempo de o costureiro terminar o vestido preto.

Daria até tempo de chegar, mas não iria, não quero ir mais ao enterro do Michael. Sentiram minha falta, deu para perceber, daqui de casa vi que a mais velha olhava na plateia procurando minha cara, e nada. Eu, no lugar dela, pedia o cheque de volta, o de cem mil.

Fosse Michael um morto que me dissesse respeito, ele iria para o jazigo de minha avó Maria de Jesus. Num cantinho, porque no ano passado morreu meu tio Antônio. Não dá para todo mundo morrer numa excursão, não cabe.

Michael estaria entre Maria e Antônio, missa em Minas Gerais numa capela justa e limpa, biscoito de polvilho e café para os conhecidos numa primeira visita pós-enterro. Decente, com silêncio de gente boa e que, de fato, conhecia o Michael.

Agora que devolvo o Michael aos seus donos, ele estará vivo daquele jeito que o conheci, como é mesmo? Vestido de defunto, saindo de uma cova, dançando com outros cadáveres. Continua vivinho da silva no rádio, com a coreografia na televisão, no cartaz do quarto. Um coveiro sabe tanto quanto uma cozinheira, eles sabem quando o corte foi na maçã ou no pulso, e sabem chorar com a notícia e com a cebola.

Anúncios

12 Responses to “crônica na Revista do Brasil”


  1. 08/14/2009 às 18:37

    Quem nasceu primeiro, “Um coveiro sabe tanto quanto uma cozinheira, eles sabem quando o corte foi na maçã ou no pulso, e sabem chorar com a notícia e com a cebola.” ou o texto?
    bjo

    • 2 andreadelfuego
      08/17/2009 às 16:14

      Que danada! Primeiro veio o texto, depois o recorte de um trecho. Beijos!

  2. 3 doidivana
    08/18/2009 às 00:23

    Que lindo! Toda vez que morrer um artista querido (eu costumo ficar de luto nessas ocasiões) eu virei aqui ler esta maravilha. Beijos

    • 4 andreadelfuego
      08/18/2009 às 21:09

      Minha mais querida, já imaginou viver TODOS os lutos? Não ia sobrar tempo para aquele nosso hambúrguer da Lanchonete. Beijoooos!

  3. 08/26/2009 às 00:55

    Andrea,muito inventivo o seu texto sobre o neguinho branquinho.A jovem escritora Jana Lauxen
    também publicou um conto de uma personagem incrívelmente inspirada nas aventuras da Maica Jessica.A personagem de Jana é uma mistura de Rebordosa,Angela Rorô,Cassia Eller e Maísa.O conto pode ser encontrado no CRONÓPIOS: http://www.cronópios.com.O seu conto O BAILE pode ser encontrado no meu blog: http://jojomachado.zip.net.Aquele abraço.Um beijo azul!!!

  4. 7 Ane
    08/26/2009 às 14:52

    Olá! Gostei muito dessa crônica… Nada contra Michael, apenas achei sua abordagem pertinente e real: lembrar e valorizar quem está próximo de nós!!! Abç

  5. 08/28/2009 às 03:32

    Lindíssimo, Andrea!
    Te beijo!

  6. 08/31/2009 às 14:41

    michael jackson morreu?
    antes ele do que eu…
    hehehe.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


delfuego@uol.com.br

Eu voo com um peteleco.

Arquivos

twitter

  • RT @RichardDawkins: Harari: “The greatest scientific discovery was the discovery of ignorance”. Culture that thinks holy book contains all… 1 month ago

%d blogueiros gostam disto: